29/06/2007 ..

Escolha bem os seus heróis...



Acabei de dar uma entrevista falando do aniversário do blog. Uma pergunta: “No que você se inspira para escrever?”. Uma resposta: “Na vida, no cotidiano, no que eu comi, no que está acontecendo agora – por essa razão escrevo sempre diariamente, ao vivo! – e muitas vezes nos comentários”. Muitas vezes, mesmo, me inspirei na “conversa” de vocês para traçar uma linha de pensamento.

Hoje, novamente uma lição de vida que encontrei nos comentários acabou inspirando esse post. Escolher bem os nossos heróis: eis uma tarefa básica e difícil! Não é como olhar para alguém pela primeira vez, e tentar saber se gostamos ou não daquela pessoa. Escolher um herói é coisa mais séria.

Ontem tive o privilégio de cozinhar para um herói. Mais do que isso, homenagear um herói. Sergio Rodrigues, o pai, o papa, o gênio do mobiliário brasileiro completa 80 lindos anos. Ontem as comemorações – que serão muitas e merecidas – tiveram início e eu tive a honra de estar fora da cozinha para homenageá-lo.

Fora da cozinha? Como assim? Assim mesmo! Não é novidade para ninguém que me tirar do restaurante é das tarefas mais difíceis. Numa quinta-feira então... Sem cozinha então... A história é a seguinte, essa homenagem aconteceu dentro de uma loja de móveis, onde claro, não tem cozinha. E onde, claro, não se pode trabalhar com fogo! Cenário perfeito para que eu não aceitasse o desafio e ficasse quietinha em casa, dentro da minha cozinha repleta de fogo! Mas um detalhe foi crucial nessa decisão: Sergio Rodrigues.

Ele é meu herói! Sempre sonhei, sentada em uma de suas cadeiras no Palácio da Alvorada em Brasília, que as cadeiras do meu restaurante seriam as mesmas. Realizei esse sonho e mais do que isso. Tenho a grande alegria de conviver com esse herói como vizinhos que se conhecem há anos. Vizinhos que se freqüentam, emprestam cadeiras, trocam confidências, tomam café juntos. Na última reforma da casinha laranja a beira do canal, encomendei mais cadeiras dele para a varanda nova. No final das contas, faltou uma mesa. Ele tirou uma do ateliê e mandou me emprestar!

Foi uma noite única, eu preparando um jantar a frio, coisa das mais modernas se tivesse sido proposital! E ele emocionadíssimo, entre outras coisas, porque um herói de verdade conhece os seus admiradores e ele sabia que, para me tirar do restaurante numa quinta-feira, a coisa tem ser séria.

Valeu tudo: o desafio, o improviso, a correria, mas acima de tudo valeu a escolha criteriosa do herói.

Até!


27/06/2007 ..

As angústias de um cozinheiro romântico...



Ando hibernando feito urso para criar a minha coleção de inverno. Gosto do silêncio, da paz da minha casa, da tranqüilidade do meu cantinho nesses momentos. É bem verdade que o meu processo de criação é muito autoconfiante, pode aparecer a qualquer hora e mostrar a que veio em qualquer circunstância. Ele se garante melhor do que eu. E olha que o desgraçado nem faz terapia! Muitas vezes acabo criando na hora mesmo, com os convidados já sentados à mesa. Levo a minha equipe a loucura, desde os garçons que não sabem bem que talheres escolher, até a minha equipe de cozinha, que tem que me acompanhar numa velocidade desesperadora, muitas vezes sem entender bem o porquê! Apesar disso, acredito que não exista escola melhor para nenhum de nós, e esperamos ansiosos pelos dias de lançamentos.

Mas o fato é que, seja na cozinha, seja no aconchego do meu cantinho, tenho encontrado uma certa dificuldade para traçar essa linha pela qual iremos seguir nessa temporada. Por vários motivos. Primeiro, o inverno ameaça chegar, mas não chega. Aliás, nunca chega de verdade por essas bandas. A gente se contenta em controlar o sistema de ar condicionado para criar o clima! Segundo, porque – não é novidade para ninguém – ando meio desiludida com os rumos que a gastronomia anda tomando. Não encontro mais um ponto de equilíbrio, um porto seguro para ancorar. Ou você se encaixa naqueles que pararam no tempo ou cai para o lado dos que destroem o tempo! Como não me encaixo nem lá, nem cá, ando meio pensativa.

Para completar a minha angústia, acabei perdendo outro dia, meio sem querer, a virgindade “molecogastronômica”. Apesar de fugir, como o diabo da cruz, encontrei-me numa situação que me fez enfrentar um jantar regado à desconstrução. Imaginem a minha cara já nos primeiros minutos do jantar, quando me apresentaram, com toda a pompa e circunstância, o primeiro prato: “Essa é nossa desconstrução da tortilha”. Quando a gente coloca no menu a palavra “nossa” significa que é um prato pelo qual temos o maior orgulho, uma especialidade da casa. È uma colocação muito séria, digna dos clássicos!

Um sorriso amarelo por fora, disfarçava a situação interna, berros de: “Nãooooooo!”. E algo me dizia antes de afundar a minha colher: “Não pense na tortilha, não pense na tortilha!”. Mas eu pensei, foi sem querer, mas eu pensei! Foi pior. Nada lembrava a boa e velha tortilha. Segui em frente com a esperança dos obstinados, e pensei: “O que pode ser pior?”. E a resposta veio de imediato: uma azeitona! Mas não uma azeitona qualquer, uma azeitona que não é uma azeitona! Depois de tomar muita coragem mordi e o líquido que se espalhou na minha boca só me fazia lembrar a hora em que o dentista diz: “Cospe!”. Mas eu não podia cuspir, não é mesmo?

Daí em diante, muita coisa aconteceu, e ao mesmo tempo, nada aconteceu. Explico: tudo tem gosto de nada e nada tem gosto de nada. Deu para entender? Não precisa. Apesar de essa cozinha ser considerada intelectual, acho que nem Sartre teria paciência de discuti-la, nem mesmo se fosse no Café Deux Magots e cercado de gente interessante! Muito menos de degustá-la!

Lá pelas tantas quando as minhas preces para que o final chegasse já beiravam o desespero, comecei a sentir uma sensação estranha. Bem, é verdade que até aqui a única coisa que senti foram sensações estranhas! Mas essa foi pior: calafrios, suores, falta de ar ou algo como o fechamento da glote? O que estaria acontecendo? Foi quando o maître se aproximou e perguntou: “A Senhora gostou? A técnica de preparo é muito minuciosa, envolve nitrogênio líquido!”.

Tudo piorou! Pensei: meu Deus, tem nitrogênio liquido no meu corpo! E agora?

E agora?

Continuarei pensativa, hibernada nos meus pensamentos, na esperança de que lembranças gastronômicas mais acolhedoras me ajudem a encontrar um caminho confortável.

Até!
26/06/2007 ..

Todo dia ela faz tudo sempre igual...



Adoro o cotidiano! Mesmo sendo geminiana, ele não me cansa. Gosto de chegar em casa na mesma hora, assistir ao mesmo programa na televisão. Comprar pão fresco na padaria e preparar café na mesma hora, todos os dias. Passear com Frederico pelos mesmos lugares e assisti-lo cheirar exatamente as mesmas graminhas... Todo dia ele também faz tudo sempre igual!

Gosto de chegar no restaurante, todos os dias na mesma hora – às vezes chego mais cedo só para dar um susto! – subir até a cozinha, checar o mise-en-place, ouvir o barulho do pão saindo do forno. Depois descer até o salão para verificar a arrumação das mesas, as sugestões de vinho para o menu do dia, os detalhes, os detalhes e os detalhes! Sentar no meu escritório bagunçado – mais parece uma sucursal do estoque – e colocar as pendências em dia antes do inicio do serviço. Aguardar a qualquer momento o garçom aparecer na janelinha do escritório e dizer: “Chef, chegaram dois clientes na mesa 10”. E tudo começa outra vez!

Gosto das repetições prazerosas do dia-a-dia. Das surpresas escondidas nos acontecimentos previsíveis. É a partir disso que eu me inspiro para sentar aqui todos os dias e escrever essas abobrinhas, por vezes grelhadas, noutras salteadas, outras gratinadas!

Há quase um ano estamos aqui vivendo essa rotina deliciosa das palavras. Muitos não acreditam que eu tenha tempo para escrever – não tenho mesmo – mas acabo arrumando. Sinal de que gosto, porque tempo para voltar a malhar eu ainda não encontrei!

Até!
25/06/2007 ..

Festas de São João...



Acho lindo esse nome, tão puro, que me lembra mesmo festa de cidade do interior. Mas em Brasília, onde vivi por muitos anos, a tradição de se comemorar as festas juninas sempre foi mantida. Montavam-se barraquinhas nas entre-quadras e cada bloco – é assim que são chamados os prédios por lá - ficava responsável por uma comida típica ou por uma brincadeira. Nos colégios também era sagrado, cada um tinha a sua e a disputa pela mais animada era sempre acirrada.

No Colégio Santa Dorotéia, onde eu estudei praticamente a vida inteira, as festas juninas eram um acontecimento. A gente ficava praticamente o ano inteiro a espera dessa farra. Cada um levava de casa a especialidade da mãe, da avó, da cozinheira, e vendia a preços simbólicos nas barraquinhas montadas nas quadras de esporte. Fora, é claro, o encontro, a farra, as músicas, os namoros!

Tudo em festa junina é bom, tem um ar de pureza e até uma certa ingenuidade. Não sei hoje em dia, mas acredito que certas coisas sobrevivem seja lá ao que for, contanto que não seja ao tráfego aéreo! Comida de festa junina é um capítulo à parte e vale cada lembrança. E quando o assunto é comida de festa junina, minhas lembranças se tornam extremamente gulosas.

Cada parte do país tem a sua especialidade e o seu conceito gastronômico para as festas juninas. No Rio Grande do Sul, não pode faltar pinhão em festa junina. Pinhão cozido, bolo de pinhão e outras coisinhas. Também temos a nossa canjica, que é um pouco diferente da preparada no Nordeste porque na maioria das vezes não utilizamos leite de coco. De qualquer maneira as duas são deliciosas. Sagu, que é um dos meus doces preferidos, só perdendo para o negrinho – brigadeiro em outras partes do país – não é exatamente um doce de festa junina, mas acaba aparecendo em algumas para a minha alegria! Milho cozido, no Nordeste, é assado. Bolo de aipim, no Nordeste, é mandioca!

Cachorro quente, esse não pode faltar em canto algum! Toda festa junina que se preze tem cachorro quente. No Sul, temos aquele clássico de festa de criança, com molhinho de tomate e salsicha cortada em rodelinhas. No Nordeste, tem um que só de pensar me enche a boca d´água: cachorro quente de carne moída. É preparado com molho de tomate e carne moída meio apimentada e é um dos sabores mais inesquecíveis da minha vida.

Certa vez, nos meus primeiros dias de aula numa escola nova – primeiros dias em escola nova é das piores sensações que se possa passar na infância – esqueci de pedir dinheiro para o meu avô para o lanche. Mas o pior de tudo é que justamente naquele dia o lanche era uma festa junina. Como não conhecia absolutamente ninguém, me conformei em sentar no pátio e aguardar o intervalo acabar. Subitamente apareceu uma pessoa que me ofereceu um cachorro quente. Fiquei sem graça, mas estava morrendo de fome e aceitei. Era de carne moída, nunca tinha experimentado cachorro quente daquele jeito, ela me disse que se chamava: cachorro quente de Paraíba, abriu um sorriso e desapareceu.

Nunca esqueci daquele sabor, também nunca entendi o nome, e nem descobri quem me ofereceu aquela iguaria que ficaria na minha lembrança para sempre. Sempre preferi acreditar que tivesse sido uma funcionária da escola. Mas quando contei ao meu avô, ele me fez procurá-la no outro dia para pagar pelo cachorro quente. Como nunca mais a encontrei, nem sombra, nem vestígios de alguém parecida. Acredito que no fundo tenha sido uma alma boa do outro mundo – certamente uma cozinheira junina!

Até!
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